Tubarões ao Largo da Costa de Lisboa
Este guia foi elaborado pela nossa equipa de biólogos marinhos. Se gostava de observar estas espécies no seu habitat natural, conheça o nosso passeio de Observação de Golfinhos e Baleias em Lisboa, Ético e Licenciado e mantenha-se atento, pois poderá ter a sorte de avistar tubarões!
Durante as nossas excursões, somos por vezes surpreendidos por avistamentos de tubarões à superfície do mar.
Distinguem-se facilmente pela posição evidente das suas barbatanas dorsal e caudal, que emergem em simultâneo. Rapidamente concluímos que estamos perante um tubarão e, com calma e alguma sorte, conseguimos aproximar-nos suavemente para identificar a espécie. A reação mais comum é o animal afastar-se assim que se apercebe da nossa presença, mas isso depende muito da espécie e do comportamento que está a desempenhar. Mesmo quando se afastam, é sempre um momento fascinante de observar.
As águas ao largo de Lisboa acolhem mais de 47 espécies de tubarões e raias, sendo o tubarão-azul o mais comum à superfície, especialmente durante o verão. Ocasionalmente, também é possível avistar o dócil tubarão-frade que se alimenta por filtração, bem como o tubarão-martelo.
Embora a maioria dos tubarões permaneça em águas mais profundas, a zona do Canhão de Lisboa é particularmente rica em presas e constitui uma área crucial de reprodução e crescimento para o tubarão-azul.
Os avistamentos junto às praias são extremamente raros e não representam qualquer ameaça, uma vez que a maioria destas espécies se alimenta de pequenos peixes e tende a evitar o contacto com humanos.
Factos Rápidos
Número de espécies registadas
Foram registadas 3 espécies, maioritariamente durante os nossos passeios de observação de golfinhos.
Espécies mais comuns
Tubarão-azul, tubarão-martelo e tubarão-frade.
Melhor altura do ano para observação
Os avistamentos à superfície são mais frequentes durante o verão devido à temperatura da água e à sua produtividade.
Onde são mais frequentes
Os avistamentos de tubarões ocorrem sobretudo em mar aberto, quando a superfície do oceano está muito calma.
Galeria de Espécies
Notas dos Biólogos
Os tubarões são predadores de topo e são cruciais para o funcionamento do ecossistema marinho. Ainda assim, um quarto de todas as espécies de tubarões e raias está classificado como ameaçado ou em perigo na Lista Vermelha da IUCN. Desempenham um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas ao predarem as presas disponíveis. No entanto, desde 1970, a abundância global de Chondrichthyes (tubarões e raias) diminuiu 71%, o que reforça a necessidade de uma melhor proteção a nível internacional.
Como identificamos
A identificação de tubarões é um pouco como o trabalho de um detetive. Na maioria das vezes, não vemos o animal por completo. Vemos uma barbatana dorsal a cortar a superfície, uma rotação rápida à tona de água ou uma sombra por baixo da superfície. A nossa regra de ouro é simples: recolher o máximo de características possível e, depois, combiná-las para chegar à identificação mais provável, incluindo imagens subaquáticas.
Procuramos características distintivas como marcas únicas (pintas, riscas, cicatrizes, pontas das barbatanas), coloração do corpo, forma da cabeça e do focinho, características das barbatanas (tamanho, forma, presença de uma quilha) e também o tamanho e o comportamento.
Nota: A identificação nem sempre é possível, pois as condições do mar e a distância influenciam significativamente a observação.
Análise Científica Aprofundada sobre a ecologia do grupo na região de Lisboa
Em Portugal, estima-se a existência de 47 espécies. A proximidade do rio Tejo e a sua produtividade fornecem nutrientes que atraem inúmeras espécies de peixe, garantindo uma fonte de alimento abundante. A presença do Canhão de Lisboa intensifica a produtividade do oceano, enriquecendo os produtores primários (organismos na base da cadeia alimentar) e, por consequência, toda a área envolvente. Os tubarões são atraídos pela disponibilidade de alimento.
A costa portuguesa torna-se particularmente atrativa para estes predadores, especialmente no verão, devido a um fenómeno chamado afloramento (upwelling). Este fenómeno, que consiste na subida de água das profundezas para a superfície, não só arrefece a água como também traz nutrientes do fundo, originando uma maior concentração de zooplâncton, o que atrai presas e predadores.
Estratégias de alimentação e caça
Os tubarões são predadores seletivos e alimentam-se de forma oportunista. A sua dentição reflete os seus hábitos alimentares e têm um olfato muito desenvolvido, o que lhes permite detetar presas a vários quilómetros de distância.
Comem uma quantidade equivalente a 0,5 a 1% do seu peso corporal por dia. Fazem uma digestão lenta, e a refeição pode ser assimilada ao longo de 24 horas a 4 dias, dependendo da espécie, da dieta e da temperatura da água.
Como os tubarões são predadores e se alimentam de forma oportunista, adaptam a sua dieta de acordo com a localização geográfica, mas as suas presas preferidas são cefalópodes, crustáceos, peixes pequenos e outros elasmobrânquios. A principal fonte de alimento do tubarão-frade é o zooplâncton, especialmente copépodes, que são crustáceos microscópicos que se alimentam de fitoplâncton. Também consomem pequenos camarões, peixes pequenos e ovos de peixe, todos parte do plâncton que existe na coluna de água.
Os tubarões utilizam diversas estratégias de alimentação, incluindo alimentação por filtração, predação por emboscada, alimentação por impulso (ram-feeding), abrindo amplamente a boca e nadando a um ritmo contínuo através da água, como o tubarão-frade, necrófagia oportunista, como o tubarão-azul, aproveitando fontes de alimento disponíveis como animais mortos, e métodos especializados, como os tubarões-martelo, que utilizam a sua cabeça larga para prender as presas contra o fundo, atordoando-as ou imobilizando-as antes de atacar.
Papel ecológico
Os tubarões são predadores de topo e são cruciais para o funcionamento do ecossistema marinho. Todos desempenham um papel importante na manutenção do equilíbrio do ecossistema ao predarem as presas disponíveis.
Reprodução e ciclo de vida
Os tubarões reproduzem-se de três formas principais: ovoviviparidade, viviparidade e oviparidade.
Os tubarões que dão à luz crias vivas podem ser ovovivíparos ou vivíparos. Os embriões desenvolvem-se no útero da mãe antes do nascimento. Os tubarões que põem ovos são ovíparos. A maioria dos tubarões é ovovivípara, e cada embrião recebe nutrientes de um grande saco vitelino que está ligado ao seu corpo durante o desenvolvimento. É o caso do tubarão-frade. O tubarão-azul e o tubarão-martelo-liso são vivíparos, com placenta vitelina, podendo dar à luz entre 4 e 135 crias por ninhada. O período de gestação varia entre 9 e 12 meses. As fêmeas atingem a maturidade aos cinco a seis anos de idade e os machos aos quatro a cinco.
Acredita-se que o acasalamento envolva mordidas por parte do macho, uma vez que os indivíduos adultos podem ser identificados com precisão quanto ao sexo pela presença ou ausência de cicatrizes de mordidas. Por exemplo, as fêmeas de tubarão-azul adaptaram-se ao ritual de acasalamento vigoroso desenvolvendo uma pele três vezes mais espessa do que a dos machos.
Para aumentar as hipóteses de sobrevivência das crias, alguns tubarões dão à luz ou depositam os ovos em áreas de viveiro (nursery), onde a água é geralmente quente e pouco profunda, existe boa disponibilidade de alimento e poucos predadores. Quando as crias atingem um tamanho adequado, deslocam-se para águas mais profundas. O Canhão de Lisboa é descrito como uma dessas áreas, o que pode explicar porque observamos mais juvenis mais perto da costa.
Comportamentos que podem ser observados
A ação mais comum que observamos durante os passeios são comportamentos de alimentação. Vemos o tubarão a nadar lentamente à superfície, alternando com movimentos rápidos nas mudanças de direção.
Os tubarões apresentam uma ampla variedade de comportamentos complexos, incluindo interações sociais que podem envolver comportamentos de dominância, como analisar o tamanho e a posição de outros animais, demonstrar curiosidade, nadar em paralelo e/ou abrir a boca, bem como métodos de caça e procura de alimento, estratégias reprodutivas e exibições de comunicação. Estes comportamentos variam frequentemente consoante a espécie e a personalidade de cada indivíduo.
Ameaças e conservação na região de Lisboa
Sobrepesca / Captura acessória (bycatch) / Alterações climáticas / Poluição do habitat
Os tubarões são particularmente vulneráveis às ameaças causadas pelos humanos porque se reproduzem lentamente, têm gestações longas, produzem poucas crias e podem não reproduzir-se todos os anos. Estes animais são fortemente afetados pela sobrepesca e por atividade não regulamentada, porque a sua carne, barbatanas ou óleo de fígado são frequentemente capturados acidentalmente em pescarias direcionadas a outras espécies, como o atum e o peixe-espada (captura acessória, bycatch), e a degradação do habitat está a afetar as suas presas e a sua saúde.
O que ajuda: ações simples e educativas
- Sensibilizar e promover políticas de gestão e conservação mais fortes.
- Fazer escolhas de consumo conscientes (evitar produtos de tubarão, como barbatanas, óleo de fígado, cartilagem).
- Reduzir a poluição de plástico.
- Apoiar organizações de conservação de tubarões.
- Educação ambiental.
- Defender uma gestão mais rigorosa das pescas e Áreas Marinhas Protegidas.
Os Nossos Passeios de Barco
Os nossos Passeios de Barco foram cuidadosamente concebidos para oferecer as melhores experiências de natureza e cultura na cidade.
Perguntas Frequentes sobre Tubarões
Existem tubarões perigosos em Lisboa?
Embora existam mais de 40 espécies de tubarões em águas portuguesas, incluindo a possível presença de tubarões-brancos, os encontros perigosos perto de Lisboa são extremamente raros, com quase nenhum ataque registado, o que torna o banho geralmente seguro. Normalmente, os tubarões têm mais medo dos humanos do que o contrário, mas são animais selvagens e podem ser curiosos, especialmente quando estão à procura de alimento.
É importante estar sempre atento às bandeiras locais na praia, especialmente às azuis/roxas relativas à vida marinha (incluindo tubarões), ter atenção às correntes fortes na costa atlântica e estar ainda mais alerta quando a luz do sol não é a melhor (início/fim do dia), o que também pode afetar a visibilidade dos tubarões e levá-los a aproximarem-se mais dos humanos sem intenção.
Porque é que os tubarões atacam?
Sabe-se que os tubarões podem atacar humanos quando estão confusos ou curiosos, e esses incidentes acontecem sobretudo quando confundem pessoas com presas naturais, como focas ou tartarugas, ou por curiosidade, uma vez que utilizam a boca para investigar objetos desconhecidos, o que pode resultar em “mordidas de teste” que, ainda assim, podem causar ferimentos.
Outros fatores possíveis incluem territorialidade, comportamento defensivo e uma maior presença humana nos seus habitats.
Os tubarões têm medo dos golfinhos?
Os tubarões são, em geral, animais solitários, enquanto os golfinhos são sociais, o que contribui para maior segurança e defesa. A capacidade dos golfinhos para se defenderem de forma eficaz torna-os adversários perigosos, levando os tubarões a serem cautelosos e a evitá-los. Já tivemos avistamentos de grupos de golfinhos a passarem ao lado de tubarões sem qualquer conflito ou interesse, mas, quando há crias, que são mais vulneráveis, também podem evitar os tubarões.
Podemos nadar com tubarões em Lisboa?
Sim, mas é uma atividade específica que requer licença de mergulho. É possível nadar com tubarões perto de Lisboa através de operadores de mergulho dedicados que organizam saídas de barco para observar tubarões-azuis e tubarões-mako no seu habitat natural (os tubarões-mako não são frequentemente observados à superfície).
Estas criaturas incríveis têm vindo a enfrentar um declínio acentuado na sua abundância a nível mundial, principalmente devido à sobrepesca e à perda de habitat. Os esforços de conservação têm evitado extinções em massa de tubarões; no entanto, é fundamental que mais projetos de conservação marinha e das pescas entrem em ação antes que seja tarde demais.
Sidónio Paes
Biólogo Marinho
Mini Glossário de Termos Específicos
Quilha interdorsal
Elevação (quilha) de pele entre a 1.ª e a 2.ª barbatana dorsal.
Elasmobrânquios
Subclasse de espécies de peixes cartilagíneos (classe Chondrichthyes) que inclui tubarões, raias, peixes-viola e peixes-serra.
Cartilagíneos
Termo utilizado para designar os Chondrichthyes, grupo que inclui tubarões, raias, peixes-serra e quimeras. Todos estes vertebrados partilham características comuns: possuem mandíbulas, barbatanas pares, brânquias e um esqueleto constituído por cartilagem em vez de osso.
Lista Vermelha da IUCN
A Lista Vermelha da IUCN é um indicador essencial do estado da biodiversidade mundial. Mais do que uma simples lista de espécies e do seu estatuto, é uma ferramenta poderosa para informar e impulsionar a ação de conservação e a evolução de políticas, indispensável para proteger os recursos naturais de que dependemos.
Fornece informação sobre a distribuição, o tamanho das populações, o habitat e a ecologia, a exploração e/ou o comércio, as ameaças e as ações de conservação, ajudando a orientar decisões de proteção.
Referências Científicas
Este guia é sustentado por literatura científica, investigação de campo e o know-how da equipa SeaEO. Em baixo, pode explorar as principais fontes utilizadas.
Estupiñán-Montaño, C., Cedeño-Figueroa, L., Estupiñán-Ortiz, J.F., Galván-Magaña, F., Sandoval-Londoño, A., Castañeda-Suarez, D., & Polo-Silva, C.J. (2019). “Feeding habits and trophic level of the smooth hammerhead shark, Sphyrna zygaena (Carcharhiniformes: Sphyrnidae), off Ecuador”. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 99 (4), 673-682.
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