Golfinhos ao largo da costa de Lisboa
Este guia foi conduzido pela nossa equipa de biólogos marinhos. Se quer ver estas espécies em estado selvagem, conheça a nossa Observação Ética de Golfinhos em Lisboa.
Ao longo dos anos, as observações de golfinhos ao largo da costa de Lisboa aumentaram exponencialmente. De facto, tem havido um maior esforço de observação, com mais embarcações e empresas na área a contribuir para o registo destas ocorrências, o que tem despertado ainda mais o interesse do público e permitido obter dados mais detalhados sobre a presença destes animais e a forma como utilizam o território.
A existência do rio Tejo, que banha parte da área de Lisboa, enriquece as zonas envolventes através do fluxo de água e nutrientes, contribuindo para um ecossistema mais rico, atraindo inúmeras espécies e reforçando a grande biodiversidade da Costa de Lisboa (peixes, moluscos, crustáceos, invertebrados, répteis, anfíbios, mamíferos marinhos e aves).
Os golfinhos encontram, ao longo da nossa costa, disponibilidade de alimento, refúgio e benefícios biológicos. Nesta área, estes animais são predadores de topo e bons indicadores da qualidade ambiental.
Assim, apesar das ameaças de origem humana (antropogénicas) a que podem estar sujeitos, os golfinhos encontram nestas águas condições adequadas para se alimentarem e reproduzirem. A sua observação é frequente, o que nos permite afirmar que existem espécies residentes.
Factos Rápidos
Número de espécies registadas
Foram registadas 8 espécies nos nossos passeios de observação de golfinhos de barco.
Espécies mais comuns
Golfinho-comum, roaz, toninha e golfinho-riscado.
Melhor altura do ano para observação
Podemos observar golfinhos ao longo de todo o ano.
Onde são mais frequentes
A maioria dos avistamentos de golfinhos ocorre no mar, mas também no estuário do Tejo (principalmente durante o verão).
Galeria de Espécies
Avistamentos
Notas dos Biólogos
Durante a época alta (abril–outubro), as condições do oceano são, em geral, mais favoráveis para as prospeções (avistamentos), pelo que realizamos mais passeios e aumentamos o esforço no mar. Como resultado, o número bruto de avistamentos é mais elevado neste período em comparação com a época baixa.
Desde 2023, a nossa frota duplicou, o que resultou num aumento acentuado do número total de avistamentos. Grande parte desta subida deve-se ao aumento do esforço de observação (mais saídas e mais tempo no mar), e não necessariamente a uma alteração das populações locais.
Sucesso de Observação: Encontrar e observar mamíferos marinhos, especialmente no mar, pode ser um grande desafio e depende fortemente das condições meteorológicas e do estado do mar. As melhores hipóteses de encontrar cetáceos ocorrem com o mar calmo, em dias sem vento e nublados. Também depende muito da espécie em causa (por exemplo, quando passam a maior parte do tempo submersos), da época do ano e até da hora do dia, da localização e do tipo de embarcação utilizada. No entanto, uma prospeção bem-sucedida depende muitas vezes também da tripulação, que traz consigo competência, experiência e motivação.
Como identificamos
Uma única característica raramente é suficiente para identificar uma espécie com confiança. Por isso, a nossa regra de ouro é recolher o máximo de informação possível em cada observação. Prestamos atenção ao tamanho do corpo, à posição, forma e cor da barbatana dorsal, à forma do corpo e da cabeça, às marcas e à coloração geral, ao sopro (jato de ar e vapor ao respirar), à forma e às marcas da cauda (barbatana caudal), ao comportamento à superfície e à sequência de mergulhos, aos saltos fora de água (breaches) e a outras atividades, ao tamanho do grupo e ao habitat principal. Aqui ficam alguns exemplos.
Análise Científica Aprofundada sobre a ecologia do grupo na região de Lisboa
Como predadores de topo, a presença e a distribuição das espécies de golfinhos estão fortemente associadas à distribuição das suas presas. A nível global, os estuários são reconhecidos como locais de agregação e abundância de peixes. A temperatura, a salinidade e o oxigénio dissolvido influenciam a distribuição espacial e sazonal das suas presas e podem ser a principal razão pela qual, ocasionalmente, vemos golfinhos no rio ou nas proximidades. O estuário fornece zonas de desova e de criação (áreas onde os juvenis crescem) para os peixes, atraindo os golfinhos para se alimentarem. Como observamos com frequência grupos com crias (mães com bebés) a entrar no rio, é possível que esta área funcione também como um refúgio, ajudando a proteger e a “ensinar” os mais novos numa zona pequena e rica em alimento.
Estratégias de alimentação e caça
Os golfinhos podem usar uma grande variedade de técnicas de caça, que dependem do tipo de presa avistada e da sua localização, e que estão também associadas ao seu tamanho. Os golfinhos de menor porte perseguem presas mais pequenas porque engolem a maioria das presas inteiras, segurando-as com os dentes e engolindo-as pela cabeça. Os golfinhos alimentam-se principalmente de peixes, cefalópodes e crustáceos. Na nossa zona, as sardinhas estão entre as presas mais preferidas.
Os golfinhos são caçadores altamente inteligentes, usando estratégias cooperativas como encurralar cardumes em “bolas” compactas ou conduzi-los até à costa (alimentação por encalhe — strand feeding) e recorrendo a táticas únicas, como criar “redes” de lama (mud nets) ou até usar esponjas como ferramentas para desalojar presas do fundo do mar. Normalmente, caçam em grupo e combinam métodos com um sonar poderoso (ecolocalização) para localizar presas, coordenando frequentemente papéis e até aprendendo comportamentos complexos com as mães, o que demonstra transmissão cultural de competências de caça.
Coreografia predador–presa
As aves marinhas são os nossos “batedores”. Quando os alcatrazes descrevem círculos no ar e as cagarras rasam a água em voltas apertadas, é sinal de que, lá em baixo, predadores estão a encurralar peixe. Os golfinhos coordenam-se com mudanças rápidas de direção e linhas de bolhas; as baleias podem avançar e investir através do cardume. Saber “ler” a linguagem das aves muitas vezes leva-nos diretamente aos cetáceos.
Efeito na cadeia alimentar
Os golfinhos frequentam as águas onde o rio Tejo encontra o Oceano Atlântico, uma zona rica em peixe, e são predadores de topo. São um predador-chave, contribuindo para controlar o crescimento de populações de peixes mais pequenos que poderiam consumir plâncton e vegetação, ajudando assim a manter o equilíbrio do sistema marinho.
Reprodução e ciclo de vida
Em geral, os golfinhos não têm uma época de acasalamento bem definida. Podemos observar comportamentos de acasalamento ao longo de todo o ano, embora tendam a ser mais frequentes durante o verão, e os golfinhos não são monogâmicos. Durante o acasalamento, é comum ver vários machos a revezarem-se em tentativas de reprodução com uma fêmea.
A idade de maturidade sexual varia consoante a espécie e o sexo, mas, de forma geral, os machos atingem a maturidade sexual entre os 8 e os 14 anos, enquanto as fêmeas costumam amadurecer um pouco mais cedo, entre os 5 e os 13 anos.
A esperança média de vida varia bastante consoante a espécie, mas, em estado selvagem, situa-se geralmente entre os 20 e os 40 anos. Os roazes vivem frequentemente mais tempo, cerca de 40–60 anos (sendo comum as fêmeas viverem mais do que os machos), e as orcas podem, potencialmente, viver mais de 90 anos. Fatores como a espécie, o sexo, o ambiente, os predadores, a poluição e o impacto humano influenciam fortemente a longevidade de cada indivíduo.
Comportamentos que podem ser observados
Classificamos os comportamentos dos golfinhos em quatro ações principais: Deslocação, Alimentação, Descanso e Socialização. Dentro de cada ação, podem existir subcategorias, consoante a observação. Por exemplo, a socialização pode incluir comportamentos de brincadeira entre indivíduos do mesmo grupo, entre espécies, ou em relação à embarcação, comportamentos de acasalamento ou demonstrações de laços sociais.
A presença ou ausência de espécies de golfinhos, bem como os seus sinais comportamentais, indicam a qualidade ambiental do estuário, tornando-os espécies “bandeira” para a conservação. Isto significa que os golfinhos são bons indicadores da qualidade do ambiente.

Observação Responsável (O nosso Código)
Na SeaEO-Tours, orgulhamo-nos de respeitar o código de conduta para a observação de cetáceos. Nos nossos passeios acompanhados por biólogos marinhos, não impomos a nossa presença.
1. Mantenha distâncias de segurança e aproxime-se em paralelo e ligeiramente atrás dos grupos — nunca de frente nem a cortar as suas trajetórias de deslocação.
2. Limite o tempo junto de cada grupo; afaste-se se houver alterações de comportamento ou se estiverem presentes crias.
3. Mantenha uma velocidade constante; coloque o motor em ponto morto quando os animais se aproximarem da embarcação.
4. Evite separar os grupos, especialmente os grupos com crias; nunca alimente, toque ou nade com a vida selvagem.
5. Reduza o ruído: evite acelerações bruscas; minimize o ruído do motor e os impactos do casco na água.
6. Respeite as zonas sensíveis junto a dormitórios de aves e canais do estuário.
A proteção dos mamíferos marinhos em Portugal é regulada por legislação que proíbe a captura, a venda e a perturbação destes animais, nomeadamente o Decreto-Lei n.º 263/81 (proteção geral na ZEE — Zona Económica Exclusiva) e o Decreto-Lei n.º 9/2006 (regras para a observação de cetáceos). Estes diplomas proíbem a perseguição, o ruído excessivo, a alimentação e o toque, visando a sua conservação e o equilíbrio do ecossistema, com regras específicas aplicáveis em áreas sensíveis, em conformidade com as diretivas europeias.
Os Nossos Passeios de Barco
Os nossos Passeios de Barco foram cuidadosamente concebidos para oferecer as melhores experiências de natureza e cultura na cidade.
Perguntas Frequentes sobre Golfinhos
Qual é a diferença entre um golfinho e uma baleia?
Todos os golfinhos são, na verdade, baleias. Cientificamente, todas as baleias, golfinhos e toninhas pertencem à ordem Cetacea (cetáceos). Dentro dos cetáceos, existem dois grandes grupos: baleias de barbas e baleias com dentes. Os golfinhos são um tipo de baleia com dentes.
Os golfinhos são, essencialmente, baleias mais pequenas – sendo a baleia-assassina (orca) o maior tipo de golfinho. As baleias de barbas não têm dentes e possuem dois espiráculos (orifícios respiratórios) externos, enquanto as baleias com dentes – o grupo dos golfinhos – têm dentes, um único espiráculo e não possuem barbas.
Os golfinhos têm medo de tubarões?
Em geral, os golfinhos evitam a presença de tubarões, sobretudo quando têm crias no grupo. No entanto, os tubarões são geralmente animais solitários, enquanto os golfinhos são sociais, o que contribui para maior segurança e defesa. Caso precisem de se defender de tubarões, os golfinhos conseguem forçá-los a recuar. Já tivemos avistamentos de grupos de golfinhos a passar ao lado de tubarões sem qualquer conflito ou interesse.
Os golfinhos não têm medo de embarcações?
Depende da espécie, mas, em geral, os golfinhos não têm medo de embarcações e muitas vezes aproximam-se ativamente por curiosidade e brincadeira, e também para poupar energia ao fazer “bow-riding” (surfar a onda de proa) para aumentar a velocidade de nado. No entanto, tráfego de embarcações excessivo ou que não cumpra as regras pode causar stress e levar a respostas negativas.
Podemos nadar com golfinhos em Portugal?
Em Portugal continental, nadar com golfinhos selvagens é proibido por lei ao abrigo do Decreto-Lei n.º 9/2006, que regula a observação turística de cetáceos e impõe distâncias e regras de conduta destinadas a evitar a perturbação dos animais, sendo o ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas a entidade responsável pela fiscalização. Nas ilhas de Portugal, como os Açores e a Madeira, existem regras específicas que permitem nadar em condições controladas e autorizadas.
Como é que os Golfinhos dormem?
Ao contrário dos humanos, as baleias e os golfinhos respiram de forma consciente, o que significa que precisam de estar acordados para respirar. As baleias e os golfinhos têm pelo menos um espiráculo no topo da cabeça – tal como nós temos narinas. Respiram ar através desse espiráculo à superfície e prendem a respiração quando estão debaixo de água. Para garantir que não se afogam enquanto dormem, tanto as baleias como os golfinhos conseguem “desligar” apenas metade do cérebro durante o sono. A parte do cérebro que se mantém desperta garante que sobem à superfície para respirar quando necessário. Passado algum tempo, os lados do cérebro trocam de função, para que ambos tenham oportunidade de descansar.
Se pudéssemos dar seis estrelas, dávamos!! Éramos sete no passeio de 3 horas de observação de golfinhos, acompanhado por um biólogo marinho, e divertimo-nos imenso. Os dois membros da tripulação tinham muitos conhecimentos, tanto sobre a vida marinha como sobre a história local. Tivemos a sorte de apanhar uma manhã muito clara e vimos IMENSOS golfinhos!! Foram sempre muito respeitadores dos golfinhos e mantiveram a distância adequada – por vezes eram os próprios golfinhos que se aproximavam do barco por curiosidade, o que foi espetacular! (conteúdo traduzido do original)
Camille Keenan
Outubro 2025, Google
Mini Glossário de Termos Específicos
Mamíferos Marinhos
A maioria dos mamíferos marinhos, incluindo golfinhos e baleias, pertence a um de dois grandes grupos: Cetacea (cetáceos) e Pinnipedia (pínipedos, como as focas). A ordem Cetacea é composta por três principais subordens, das quais duas têm representantes vivos:
Os Mysticeti são as baleias de barbas (quatro famílias: as baleias-francas, a Baleia-franca-pigmeia, a Baleia-cinzenta e os Rorquais), que não têm dentes, mas possuem dois espiráculos externos.
Os Odontoceti possuem dentes, um único espiráculo e não têm barbas, sendo geralmente definidos como as baleias com dentes e os golfinhos (os maiores grupos em termos de número de espécies são os golfinhos oceânicos e as baleias-de-bico, mas incluem também o Cachalote, que forma a sua própria família, a Beluga e o Narval, as Toninhas e várias famílias de golfinhos de rio).
Toninhas
São um grupo distinto de cetáceos, semelhantes a golfinhos, de pequeno porte e sem bico, com sete espécies pertencentes a três géneros (Neophocaena, Phocoena, Phocoenoides). Estão intimamente relacionadas com os golfinhos, mas têm dentes espatulados (não cónicos) e várias características anatómicas e estruturais distintas. A toninha-comum pertence ao género Phocoena.
Grupos com crias
São grupos especializados e muito coesos de fêmeas (mães) e das suas crias, por vezes acompanhadas por outras fêmeas que desempenham o papel de “tias”. Formam-se para aumentar a segurança, partilhar cuidados e permitir a aprendizagem de competências essenciais – como a caça e a socialização – num ambiente protegido, muitas vezes em águas mais pouco profundas, afastadas de ameaças maiores como predadores e machos adultos.
Ecolocalização
Sistema usado por muitos cetáceos para se orientarem, navegarem e encontrarem alimento, emitindo sons e interpretando os ecos devolvidos.
Bow-riding (surfar a onda de proa)
Comportamento de “surfar” a onda de pressão criada à frente (proa) de um navio ou de uma grande baleia.
Lista Vermelha da IUCN
A Lista Vermelha da IUCN é um indicador essencial do estado da biodiversidade mundial. Mais do que uma simples lista de espécies e do seu estatuto, é uma ferramenta poderosa para informar e impulsionar a ação de conservação e a evolução de políticas, indispensável para proteger os recursos naturais de que dependemos.
Fornece informação sobre a distribuição, o tamanho das populações, o habitat e a ecologia, a exploração e/ou o comércio, as ameaças e as ações de conservação, ajudando a orientar decisões de proteção.
Referências Científicas
Este guia é sustentado por literatura científica, investigação de campo e o know-how da equipa SeaEO. Em baixo, pode explorar as principais fontes utilizadas.
Berta, A. (Ed). 2015. Whales, dolphins & porpoises: A natural history and species guide. University of Chicago Press
Carwardine, M. 1995. Whales, dolphins and porpoises: The clearest recognition guides available. Dorling Kindersley, London.
Kiszka, J., M. Woodstock, M. Heithaus. 2022. Functional Roles and Ecological Importance of Small Cetaceans in Aquatic Ecosystems. Frontiers, 9:803173: 1–7. Consultado a: 13 de janeiro de 2026.
Latham, Katherine. “The scientists learning to speak whale” (online), BBC, 2024. Consultado a: 14 de janeiro de 2026.
Monteiro, S.; Torres-Pereira, A.; Ferreira, M.; Vingada, J.V.; Nicolau, L.; Sequeira, M.; López, A.; Covelo, P.; Azevedo, M. I.; Hernandez-Milian, G.; Pierce, G. J.; Eira, C. 2025. “What’s on the menu? Diet of common minke whales (Balaenoptera acutorostrata) stranded on the Atlantic Iberian coast”. Marine Environmental Research, 205, 107024.
Shirihai, H., & Jarrett, B. 2006. Whales, dolphins and seals: A field guide to the marine mammals of the world. A. & C. Black, London.
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