Baleias ao largo da costa de Lisboa
Este guia foi desenvolvido pela nossa equipa de biólogos marinhos. Se gostaria de ver estas espécies na natureza, descubra o nosso Passeio de Observação de Golfinhos em Lisboa – Ético e Licenciado e esteja a postos para um avistamento de baleias!
Um dos factos mais surpreendentes para quem participa nos nossos passeios é a possibilidade de observar baleias durante a experiência. Na verdade, sabemos que o rico ecossistema ao longo da costa da Grande Lisboa sustenta uma biodiversidade incrível, atraindo animais de todos os tamanhos, incluindo baleias que se alimentam nesta zona durante as suas migrações.
Naturalmente, as menores profundidades e as marés influenciam a sua presença mais perto ou mais longe da costa, o que pode exigir maior esforço por parte da embarcação. Ainda assim, não é raro sermos surpreendidos com baleias a apenas algumas milhas da costa. Os avistamentos de baleias são sempre impressionantes e requerem tempo e paciência, uma vez que estes animais passam longos períodos submersos.
A sua presença na área não é garantida, mas sabemos que passam com frequência ao largo da nossa costa. Por vezes, as migrações são bem marcadas e notáveis, sobretudo as das baleias de barbas, que passam o verão a alimentar-se em mares frios e se reproduzem em ecossistemas temperados ou mesmo de águas quentes, em latitudes muito mais baixas.
Factos Rápidos
Número de espécies registadas
Foram registadas 6 espécies, na maioria durante os nossos passeios de observação de golfinhos.
Espécies mais comuns
Baleia-anã, Baleia-comum e Baleia-sardinheira
Melhor altura do ano para observação
As baleias podem ser observadas ao longo de todo o ano, embora os avistamentos dependam das condições do mar e do tempo. No inverno há menos saídas e menos registos, mas existem observações na maioria dos meses.
Onde são mais frequentes
A observação de baleias ocorre exclusivamente em mar aberto. A probabilidade de avistamentos aumenta em profundidades superiores a 100 metros.
Galeria de Espécies
Avistamentos
Notas dos Biólogos Marinhos:
As baleias podem ser observadas ao longo de todo o ano no Atlântico Norte, à medida que viajam de norte para sul e de sul para norte em busca de zonas de alimentação, áreas de acasalamento e locais de reprodução.
Entre abril e outubro, as condições no oceano são, em geral, mais favoráveis, permitindo-nos passar mais tempo no mar. Este maior esforço de observação resulta naturalmente em mais avistamentos durante a época alta do que nos meses de inverno.
As baleias apresentam também padrões sazonais de dispersão que ainda são apenas parcialmente compreendidos pela comunidade científica. Em 2025, foram registadas várias baleias-de-Bryde a sul de Lisboa e, em 2023 e 2024, documentámos vários avistamentos de baleias-comuns na região de Lisboa.
A observação de baleias difere da observação de golfinhos, tanto no método como nas expectativas. As baleias preferem zonas offshore mais profundas e passam longos períodos submersas, pelo que a paciência é essencial. Quando ocorrem encontros, são raros, imprevisíveis e cientificamente valiosos, e são sempre um momento memorável no mar.
Sucesso de Observação: Encontrar e observar mamíferos marinhos, especialmente no mar, pode ser um grande desafio e depende fortemente das condições meteorológicas e do estado do mar. As melhores hipóteses de encontrar cetáceos ocorrem com o mar calmo, em dias sem vento e nublados. Também depende muito da espécie em causa (por exemplo, quando passam a maior parte do tempo submersos), da época do ano e até da hora do dia, da localização e do tipo de embarcação utilizada. No entanto, uma prospeção bem-sucedida depende muitas vezes também da tripulação, que traz consigo competência, experiência e motivação.
Avistamento de baleia em Lisboa
De vez em quando, o oceano brinda-nos com momentos que vão muito além do que esperamos. Este vídeo mostra um desses encontros: uma baleia a vir à superfície mesmo ao largo da costa de Lisboa. Raro, poderoso e inesquecível.
Avistamento: SeaEO-Tours, Baleia-comum, novembro de 2024
Edição: Lourenço Sassetti
Operação de drone e câmara: Sidónio Paes & Ricardo Silveira
Música: “Scott Buckley – Echoes” licenciada ao abrigo de Creative Commons
Como identificamos
Uma única característica raramente é suficiente para uma identificação com confiança, por isso a nossa regra de ouro é recolher informação sobre o maior número possível de características. Prestamos especial atenção ao tamanho; à posição, forma e cor da barbatana dorsal; ao formato do corpo e da cabeça; à coloração e às marcas; ao sopro; ao formato e às marcas da cauda; ao comportamento à superfície e à sequência de mergulho; a saltos (breaching) e outras atividades; ao número de animais; e ao habitat principal. Aqui ficam alguns exemplos.
Análise Científica Aprofundada sobre a ecologia do grupo na região de Lisboa
As baleias são observadas perto de Lisboa porque a foz do rio Tejo cria uma zona de alimentação rica em nutrientes para elas e para os golfinhos, atraindo uma grande diversidade de espécies, como a baleia-comum, a baleia-de-Bryde e a baleia-anã. Estas espécies são atraídas pela abundância de pequenos peixes (sardinhas, cavalas) e de krill nas águas produtivas, sobretudo junto ao profundo Canhão de Lisboa, enquanto passam ao largo da nossa costa.
Estratégias de alimentação e caça
As suas escolhas alimentares dependem do tamanho e de terem ou não dentes. A maioria das baleias de maior dimensão alimenta-se de grandes cardumes de peixe ou de krill e, por exemplo, a baleia-anã tende a alimentar-se nesta zona devido à disponibilidade de sardinhas.
As baleias alimentam-se através de estratégias variadas enquanto praticam alimentação por filtragem. Baleias como a baleia-azul, a baleia-comum e a baleia-de-bossas alimentam-se por investida (lunge feeding), impulsionando-se através de cardumes densos com a boca bem aberta, expandindo as pregas gulares (dobras na garganta que permitem aumentar o volume da boca) e, de seguida, expulsando a água através das barbas (placas de queratina que funcionam como um filtro), retendo o alimento (krill e pequenos peixes) no interior. Esta técnica pode incluir investidas verticais ou horizontais para capturar, de forma eficiente, grandes quantidades de alimento em águas ricas em nutrientes e é um dos comportamentos mais comuns observados durante a alimentação nesta zona.
As baleias-de-bossas são também conhecidas por utilizarem a estratégia da rede de bolhas (bubble-net feeding): libertam bolhas em círculo para encurralar cardumes de peixe ou krill e, depois, sobem através dessa “rede” com a boca aberta. Por vezes, usam ainda as barbatanas peitorais para conduzir as presas para dentro da boca, mantendo-se na vertical na coluna de água.
Papel ecológico
Várias espécies de baleias foram severamente reduzidas após séculos de exploração. Depois da proibição da caça comercial, muitas populações começaram a recuperar, voltando a ocupar partes da sua área de distribuição histórica e tornando-se espécies-bandeira da conservação marinha.
As baleias também contribuem para a resiliência climática, ao sequestrar carbono e ao reciclar nutrientes, aumentando a produtividade do oceano. Armazenam carbono no corpo e, através de fezes ricas em nutrientes (sobretudo ferro e azoto), fertilizam o fitoplâncton. Estas algas microscópicas produzem uma grande parte do oxigénio que respiramos e absorvem CO₂, ajudando a regular o clima global e a sustentar as cadeias alimentares marinhas. Quando morrem, as suas carcaças podem afundar-se até ao fundo do mar, retendo carbono durante longos períodos.
Reprodução e ciclo de vida
As estimativas de maturidade sexual nas baleias de barbas variam, consoante a espécie, entre cerca de 4 e 11 anos e são frequentemente expressas em função do comprimento do corpo. Por exemplo, as baleias-de-Bryde atingem normalmente a maturidade por volta dos 12 m, enquanto as baleias-anãs a atingem aos cerca de 7 a 8 m.
As épocas de acasalamento e de nascimento estão ligadas ao ciclo anual de migração. Embora exista muita variação, muitas baleias acasalam, no inverno, em áreas de parto situadas em baixas latitudes. As fêmeas tornam-se provavelmente recetivas sexualmente uma vez por ano, mas podem voltar a ficar recetivas uma segunda vez se a conceção não acontecer. Os machos seguem um ciclo reprodutivo sazonal que se alinha com a recetividade das fêmeas e competem com outros machos por oportunidades de acasalamento. As fêmeas acasalam frequentemente com mais do que um macho em cada época. Consoante a espécie, uma cria pode demorar entre 10 e 17 meses a desenvolver-se no ventre da mãe.
As baleias estão entre os mamíferos com maior longevidade, com uma esperança de vida que varia muito consoante a espécie. As baleias-anãs podem viver 30 a 60 anos, as baleias-azuis cerca de 70 a 90 anos e as baleias-comuns até aproximadamente 100 anos. As baleias-da-Gronelândia podem viver mais de 200 anos, sendo os mamíferos com maior longevidade conhecida. A genética, as condições ambientais e os impactos humanos influenciam a longevidade das baleias.
Comportamentos que podem ser observados
Classificamos os comportamentos das baleias em quatro ações principais: Deslocação, Alimentação, Repouso e Socialização. Dentro de cada ação, podem existir subcategorias, consoante a observação. Por exemplo, a socialização pode incluir comunicação, comportamentos intra ou interespecíficos, ou até comportamentos em relação à embarcação, como acasalamento ou comportamentos à superfície (a flutuar à tona de água, spy-hopping ou saltos).
Ameaças e conservação na região de Lisboa
Pressões relevantes para o grupo
Poluição/Sobrepesca/Ruído/Captura acessória
Os golfinhos e as baleias são ameaçados pelas alterações climáticas e pela atividade humana. O ruído submarino de origem humana causa stress e interfere com a comunicação de baleias e golfinhos; as alterações climáticas estão a afetar a disponibilidade de alimento e a química do oceano; e as colisões com embarcações e o enredamento em redes de pesca também estão a contribuir para a diminuição das populações. Por estas razões, a regulamentação legal e o cumprimento das regras ambientais e dos códigos de conduta são essenciais para a proteção destes animais.
O que ajuda (ações simples e educativas)
Pequenas ações fazem a diferença. A colaboração entre entidades ou as ações individuais para proteger e/ou melhorar o ambiente promovem um ecossistema mais saudável e avistamentos extraordinários.
- Limpezas de praia
- Cumprimento do código de conduta na condução de embarcações na proximidade de animais marinhos
- Educação ambiental nas escolas

Observação Responsável (O nosso Código)
Na SeaEO-Tours, orgulhamo-nos de respeitar o código de conduta para a observação de cetáceos. Nos nossos passeios acompanhados por biólogos marinhos, não impomos a nossa presença.
1. Mantenha distâncias de segurança e aproxime-se em paralelo e ligeiramente atrás dos grupos — nunca de frente nem a cortar as suas trajetórias de deslocação.
2. Limite o tempo junto de cada grupo; afaste-se se houver alterações de comportamento ou se estiverem presentes crias.
3. Mantenha uma velocidade constante; coloque o motor em ponto morto quando os animais se aproximarem da embarcação.
4. Evite separar os grupos, especialmente os grupos com crias; nunca alimente, toque ou nade com a vida selvagem.
5. Reduza o ruído: evite acelerações bruscas; minimize o ruído do motor e os impactos do casco na água.
6. Respeite as zonas sensíveis junto a dormitórios de aves e canais do estuário.
A proteção dos mamíferos marinhos em Portugal é regulada por legislação que proíbe a captura, a venda e a perturbação destes animais, nomeadamente o Decreto-Lei n.º 263/81 (proteção geral na ZEE — Zona Económica Exclusiva) e o Decreto-Lei n.º 9/2006 (regras para a observação de cetáceos). Estes diplomas proíbem a perseguição, o ruído excessivo, a alimentação e o toque, visando a sua conservação e o equilíbrio do ecossistema, com regras específicas aplicáveis em áreas sensíveis, em conformidade com as diretivas europeias.
Os Nossos Passeios de Barco
Os nossos Passeios de Barco foram cuidadosamente concebidos para oferecer as melhores experiências de natureza e cultura na cidade.
Perguntas frequentes sobre Baleias
Qual é a diferença entre um golfinho e uma baleia?
Todos os golfinhos são, na verdade, baleias. Cientificamente, todas as baleias, golfinhos e toninhas pertencem à ordem Cetacea (cetáceos). Dentro dos cetáceos, existem dois grandes grupos: baleias de barbas e baleias com dentes. Os golfinhos são um tipo de baleia com dentes.
Os golfinhos são, essencialmente, baleias mais pequenas – sendo a baleia-assassina (orca) o maior tipo de golfinho. As baleias de barbas não têm dentes e possuem dois espiráculos (orifícios respiratórios) externos, enquanto as baleias com dentes – o grupo dos golfinhos – têm dentes, um único espiráculo e não possuem barbas.
Porque é que as baleias não têm dentes?
As baleias de barbas não têm dentes. Em vez disso, têm barbas (placas de queratina) que filtram krill e plâncton da água do mar. Os golfinhos e outras baleias com dentes têm dentes em forma de cone, que usam para agarrar as presas.
As baleias estão sempre sozinhas?
Tanto as baleias como os golfinhos são animais sociais. No entanto, os golfinhos tendem a deslocar-se em grupos sociais muito maiores. As baleias de barbas tendem a viajar sozinhas ou em grupos mais pequenos. Já registámos avistamentos de 3 baleias-comuns no mesmo local, bem como observações de mães com crias. Por vezes, as baleias juntam-se para se alimentar, reproduzir ou migrar e reúnem-se frequentemente durante a época de nascimento. Também já tivemos avistamentos de baleias com golfinhos, sobretudo durante comportamentos de alimentação.
As baleias têm ecolocalizadores?
As baleias de barbas não conseguem usar ecolocalização. Mas comunicam entre si através de vocalizações profundas e de baixa frequência, que conseguem percorrer longas distâncias através do oceano.
Quão depressa pode nadar uma baleia?
As baleias nadam a diferentes velocidades, consoante o comportamento e se estão em perigo. À superfície, nadam mais depressa do que durante um mergulho profundo. Foram registadas baleias em migração a percorrer mais de 3.700 km a uma velocidade média contínua de 17 km/h. As velocidades de cruzeiro prolongadas situam-se, provavelmente, entre 4 e 30 km/h.
Os seres humanos conseguem comunicar com baleias?
Cientistas estão a trabalhar ativamente na comunicação com baleias, recorrendo sobretudo a IA avançada para descodificar os seus cliques e cantos complexos. Já existem primeiros avanços na identificação de padrões e até na criação de interações básicas de “resposta e réplica”. No entanto, uma compreensão verdadeiramente profunda continua a ser um objetivo em desenvolvimento.
A tripulação não só encontrou golfinhos, como também encontrou baleias em mar aberto!!!
Gary P
Tripadvisor
Mini Glossário de Termos Específicos
Mamíferos Marinhos
A maioria dos mamíferos marinhos, incluindo golfinhos e baleias, pertence a um de dois grandes grupos: Cetacea (cetáceos) e Pinnipedia (pínipedos, como as focas). A ordem Cetacea é composta por três principais subordens, das quais duas têm representantes vivos:
Os Mysticeti são as baleias de barbas (quatro famílias: as baleias-francas, a Baleia-franca-pigmeia, a Baleia-cinzenta e os Rorquais), que não têm dentes, mas possuem dois espiráculos externos.
Os Odontoceti possuem dentes, um único espiráculo e não têm barbas, sendo geralmente definidos como as baleias com dentes e os golfinhos (os maiores grupos em termos de número de espécies são os golfinhos oceânicos e as baleias-de-bico, mas incluem também o Cachalote, que forma a sua própria família, a Beluga e o Narval, as Toninhas e várias famílias de golfinhos de rio).
Flutuar à tona
Permanecer imóvel à superfície ou perto dela.
Spyhopping
Erguer a cabeça na vertical fora de água e, depois, voltar a submergir sem grande salpico.
Fitoplâncton
São algas marinhas microscópicas. O fitoplâncton é a base de várias cadeias alimentares aquáticas.
Lista Vermelha da IUCN
A Lista Vermelha da IUCN é um indicador essencial do estado da biodiversidade mundial. Mais do que uma simples lista de espécies e do seu estatuto, é uma ferramenta poderosa para informar e impulsionar a ação de conservação e a evolução de políticas, indispensável para proteger os recursos naturais de que dependemos.
Fornece informação sobre a distribuição, o tamanho das populações, o habitat e a ecologia, a exploração e/ou o comércio, as ameaças e as ações de conservação, ajudando a orientar decisões de proteção.
Referências Científicas
Este guia é sustentado por literatura científica, investigação de campo e o know-how da equipa SeaEO. Em baixo, pode explorar as principais fontes utilizadas.
Berta, A. (Ed.). 2015. Whales, dolphins & porpoises: A natural history and species guide. University of Chicago Press.
Carwardine, M. 1995. Whales, dolphins and porpoises: The clearest recognition guides available. Dorling Kindersley, London.
Kiszka, J., M. Woodstock, M. Heithaus. 2022. Functional Roles and Ecological Importance of Small Cetaceans in Aquatic Ecosystems. Frontiers, 9:803173: 1–7. Consultado a: 13 de janeiro de 2026.
Latham, Katherine. “The scientists learning to speak whale” (online), BBC, 2024. Consultado a: 14 de janeiro de 2026.
Monteiro, S.; Torres-Pereira, A.; Ferreira, M.; Vingada, J.V.; Nicolau, L.; Sequeira, M.; López, A.; Covelo, P.; Azevedo, M. I.; Hernandez-Milian, G.; Pierce, G. J.; Eira, C. 2025. “What’s on the menu? Diet of common minke whales (Balaenoptera acutorostrata) stranded on the Atlantic Iberian coast”. Marine Environmental Research, 205, 107024.
Shirihai, H., & Jarrett, B. 2006. Whales, dolphins and seals: A field guide to the marine mammals of the world. A. & C. Black, London.