Aves marinhas ao largo da costa de Lisboa

Este guia foi elaborado pela nossa equipa de ornitólogos e biólogos marinhos. Se quer observar estas espécies no seu habitat natural, descubra o nosso Passeio de Observação de Aves em Lisboa!

A observação de aves pelágicas realiza-se ao largo, para além da linha de costa, onde os processos oceânicos moldam a vida marinha de formas verdadeiramente notáveis. Ao contrário da observação costeira, permite-nos ver as aves marinhas no seu verdadeiro ambiente, longe de terra e intimamente ligadas à dinâmica do Oceano Atlântico.

As aves marinhas estão altamente adaptadas à vida no mar. Muitas espécies passam grande parte da sua vida em mar aberto, regressando a terra apenas para se reproduzirem. As suas asas longas permitem um voo planado eficiente sobre as ondas, as glândulas de sal especializadas permitem-lhes beber água do mar, e os seus sentidos apurados ajudam-nas a localizar presas a grandes distâncias.

Ao longo da costa de Lisboa, as correntes atlânticas, o afloramento costeiro sazonal (upwelling) e o aporte de nutrientes do Estuário do Tejo criam águas produtivas, ricas em peixe. Onde as presas se concentram, os predadores seguem-nas. Assim, observar aves marinhas ao largo torna-se também uma forma de compreender a ecologia marinha em ação.

A observação de campo cuidadosa ajuda a revelar estas ligações, transformando cada avistamento numa oportunidade para interpretar o oceano e compreender melhor o seu equilíbrio.

Explore a ciência. Viva a experiência.

Factos Rápidos

Número de espécies registadas

Foram registadas 31 espécies, maioritariamente durante os nossos passeios de observação de aves.

Espécies mais comuns

Cagarra, Alcatraz, Painho-da-madeira, Pardela-balear

Melhor altura do ano para observação

De setembro a maio, quando várias aves marinhas começam a voar para sul, desde o Hemisfério Norte até latitudes mais baixas, como Lisboa.

Onde são mais frequentes

Mar aberto. Portugal encontra-se no cruzamento de duas grandes rotas migratórias de aves: a Rota Migratória do Atlântico Norte e a Rota Migratória do Mediterrâneo.

Galeria de Espécies

Notas dos Biólogos

Sucesso da observação: É importante participar em atividades de observação de aves acompanhadas por especialistas. Não só disponibilizamos os recursos necessários, como também asseguramos um acompanhamento informado e seguro. Os guias de campo oferecem descrições detalhadas e ilustrações que ajudam a adquirir as bases para identificar as aves pela sua aparência e pela zona onde se encontram. Mas também aprendemos consigo e com observações inesperadas. Como se trata de uma atividade de observação de vida selvagem, não podemos garantir avistamentos. O que podemos garantir é um bom momento em pleno contacto com a natureza. A observação de aves exige paciência e atenção. Reserve tempo, mantenha a calma e deixe que as aves surjam ao seu ritmo. Utilize binóculos para observar mais de perto os seus detalhes.

Proteção legal: Portugal é membro da União Europeia e está sujeito à Diretiva Aves (2009/147/CE) e à Diretiva Habitats (92/43/CEE), que estabelecem os quadros de proteção das espécies e dos habitats, incluindo os habitats marinhos e as áreas da Rede Natura 2000.

Como as identificamos

A identificação de aves marinhas no mar é como resolver um puzzle em movimento. Raramente vemos uma ave perfeitamente enquadrada e imóvel. Em vez disso, observamos silhuetas no horizonte, batimentos de asas sobre as ondas ou uma forma distante a planar rente à água. A nossa abordagem é simples: recolher o maior número possível de características de campo e combiná-las para chegar à identificação mais provável.

Damos prioridade à estrutura, porque a forma é muitas vezes mais fiável do que a cor no mar. Os padrões da plumagem, o estilo de voo, o comportamento e a associação com outras espécies também nos dão pistas importantes.

Nota: a identificação nem sempre é possível. As condições de luz, a distância e o estado do mar podem limitar o que conseguimos observar.

Tamanho e Forma

Aves grandes, de asas longas e com voo planado rígido podem indicar pardelas ou alcatrazes. Silhuetas mais pequenas, com voo tremulante e próximo da superfície, podem sugerir painhos.

Padrão de voo

As pardelas planam normalmente em arcos longos, inclinando-se rente às ondas. Os alcatrazes voam com força e podem mergulhar subitamente em pique. As andorinhas-do-mar apresentam batimentos de asa mais leves e elásticos.

Coloração

Contrastes marcados, como partes inferiores brancas em oposição a partes superiores mais escuras, podem ajudar a distinguir espécies. Também podem ocorrer diferenças sazonais na plumagem.

Vocalização

Embora as aves marinhas sejam, em geral, mais silenciosas, as vocalizações podem ajudar na identificação durante a alimentação. As gaivotas e os moleiros emitem chamamentos ásperos, enquanto as andorinhas-do-mar produzem sons mais agudos e penetrantes.

Comportamento

Frenesins de alimentação, voo planado solitário, pairar, mergulhos à superfície ou perseguições cleptoparasíticas (roubo de alimento a outras aves) fornecem contexto ecológico que apoia a identificação.

Análise Científica sobre a ecologia do grupo na região de Lisboa

Sabemos que a presença ou passagem ao longo da costa de Lisboa depende da disponibilidade de alimento proporcionada pelas nossas águas. A riqueza do meio marinho e do ecossistema atrai um vasto número de espécies. As zonas de elevada produtividade, resultantes de fenómenos oceanográficos como os afloramentos costeiros (upwellings), as correntes oceânicas ou as desembocaduras dos rios, são ricas em nutrientes, o que favorece as cadeias tróficas. Temos aves marinhas em Lisboa devido às correntes, à diversidade de presas e ao Estuário do Tejo, um habitat crucial que disponibiliza alimento em abundância. A proximidade do rio Tejo contribui para a entrada de nutrientes e para o desenvolvimento do ecossistema, que fornece presas às aves marinhas.

Estratégias de alimentação e caça

Em muitas cadeias alimentares, as aves marinhas podem ser encontradas como predadoras ou oportunistas.

As aves marinhas alimentam-se de uma grande variedade de organismos marinhos, desde zooplâncton até peixes e cefalópodes. O tipo de presa influencia o comportamento de alimentação: os pequenos peixes pelágicos concentram-se normalmente em cardumes e atraem bandos de aves que se alimentam à superfície (como gaivotas e painhos) e de aves que mergulham para capturar alimento (como alcatrazes, pardelas e andorinhas-do-mar), enquanto outras presas, como as lulas, são capturadas por aves com hábitos de alimentação mais solitários. Os cardumes de peixe (arenques, sardinhas, cavalas, capelim e peixes-agulha) são a principal fonte de alimento, e é frequente observar aves marinhas a alimentar-se perto de golfinhos e baleias.

As aves marinhas têm estratégias de alimentação diversas, geralmente agrupadas em alimentação à superfície (picar, escumar a superfície ou bater na água com as patas), mergulho em pique (a partir de altura ou com perseguição subaquática), perseguição aérea, necrofagia e cleptoparasitismo (roubo de alimento). Durante os nossos passeios, podemos observar frenesins de alimentação entre aves marinhas e golfinhos. Vemos frequentemente alcatrazes a mergulhar de grandes alturas para caçar, pardelas e gaivotas a recolher freneticamente restos de presas ou alimento facilmente capturado à superfície, e até perseguições intensas e ruidosas entre espécies, especialmente entre moleiros e gaivotas.

Papel ecológico

As aves marinhas são predadores marinhos que ocupam os níveis tróficos superiores das cadeias alimentares marinhas. São bons indicadores da saúde dos ecossistemas marinhos e desempenham um papel fundamental nesses sistemas. Podem contribuir para moldar os processos ecológicos costeiros que influenciam diretamente o estado trófico, a contaminação ambiental, a biodiversidade e as cadeias alimentares, tanto através de processos tróficos como não tróficos.

Através das fezes das aves marinhas, aumenta a quantidade de matéria orgânica tanto no solo das colónias de reprodução como em áreas marinhas relativamente fechadas, como baías e estuários. Esta participação nos ciclos de nutrientes é vital, uma vez que alguns elementos, como o fósforo e o azoto, são reciclados de volta para os ecossistemas.

Reprodução e ciclo de vida

A reprodução das aves marinhas caracteriza-se por uma grande longevidade, fortes laços entre pares (monogamia ao longo da vida), nidificação em colónia, um ciclo de vida reprodutor bem definido, longos períodos de incubação, extensas deslocações no mar para alimentação, e partilha de tarefas parentais na criação das crias, que demoram anos até atingir a maturidade e tornar-se independentes. As suas fases de vida incluem ovo, cria recém-eclodida, cria no ninho, juvenil voador, juvenil e adulto, muitas vezes com épocas de invernada e de reprodução distintas.

De um modo geral, a esperança de vida das aves marinhas é superior à das aves terrestres. As aves marinhas são conhecidas pela sua grande longevidade, sendo que muitas espécies vivem entre 30 e 50 anos em estado selvagem.

Comportamentos que podem ser observados

Os comportamentos das aves marinhas estão ligados a uma sobrevivência eficiente no meio marinho, incluindo voos de alimentação a longas distâncias, a formação de grandes colónias de reprodução em terra e rituais de acasalamento complexos (como danças, exibições e oferta de peixe). Apresentam também estratégias de alimentação muito diversificadas. A sua estratégia de vida envolve um elevado investimento parental, grande longevidade, maturidade tardia e fortes laços entre pares, juntamente com adaptações como um olfato e uma visão excecionalmente apurados para encontrar alimento.

Padrão migratório

As aves marinhas apresentam comportamentos tanto migratórios como sedentários. Os seus movimentos variam desde deslocações diárias de curta distância, entre os locais de nidificação e as áreas de alimentação, até migrações sazonais intercontinentais para reprodução, que implicam travessias oceânicas.

No hemisfério norte, as aves marinhas deslocam-se para sul das suas colónias de reprodução durante o inverno, onde as condições meteorológicas são mais favoráveis e existe maior disponibilidade de alimento. Durante todo o período não reprodutor, os indivíduos de algumas espécies passam muitos meses longe de terra e podem tornar-se mais solitários. O período de inverno é passado a procurar alimento e a acumular reservas para as exigências da época de reprodução seguinte. Quando regressam às áreas de reprodução, milhares de indivíduos concentram-se em faces escarpadas ou instalam-se entre rochas moldadas pelas ondas para nidificar.

Ameaças e conservação na região de Lisboa

Espécies exóticas invasoras / Poluição / Capturas acidentais / Sobrepesca / Destruição de habitat / Fenómenos meteorológicos severos

As aves marinhas estão entre os grupos de aves mais ameaçados, com 31% das espécies globalmente ameaçadas e quase metade a registar declínios populacionais. Enfrentam uma combinação de pressões marinhas e terrestres que muitas vezes atuam de forma cumulativa.

Algumas das ameaças que enfrentam incluem as espécies exóticas invasoras, quando uma espécie é introduzida numa área de reprodução, numa fase em que os animais se encontram mais vulneráveis por estarem focados na reprodução; as capturas acidentais, com mortalidade incidental nas pescas; a sobrepesca, que afeta a sua alimentação; a caça; as alterações climáticas ou os fenómenos meteorológicos severos; a perturbação; e a destruição de habitats através de químicos, exploração florestal e corte de madeira. Estas são ameaças contínuas que afetam a maioria das espécies de aves marinhas, incluindo mais de um quinto de todas as espécies.

O que ajuda – ações simples e educativas

  • Gestão das pescas para reduzir as capturas acidentais
  • Regulamentação das atividades humanas para proteger os habitats de nidificação e alimentação
  • Apoiar e contribuir para instituições de conservação e reabilitação de aves marinhas
  • Contactar as autoridades (SEPNA) ou a SPEA se encontrar aves marinhas em perigo
  • Criação e gestão de Áreas Marinhas Protegidas para salvaguardar habitats críticos
  • Educação ambiental nas escolas

Os Nossos Passeios de Barco

Os nossos Passeios de Barco foram cuidadosamente concebidos para oferecer as melhores experiências de natureza e cultura na cidade.

Perguntas frequentes sobre aves marinhas

Qual é a ave marinha mais pequena?

Os painhos são as aves marinhas mais pequenas do mundo, medindo entre 13 cm e 26 cm de comprimento, e estão entre as espécies que podemos observar durante os nossos passeios de observação de aves.

Qual é a maior ave marinha em Lisboa?

A maior ave marinha que é mais provável observar perto de Lisboa é o Alcatraz (Morus bassanus). Muito fácil de reconhecer pela sua coloração branca, com pontas das asas pretas e cabeça amarela, é conhecido pelos seus mergulhos em pique a grande velocidade. Pode medir entre 87 e 100 cm de comprimento, ter uma envergadura entre 165 e 180 cm e pesar cerca de 2,4 a 3,6 kg, sendo a maior ave marinha do Atlântico Norte e podendo ser observada em águas portuguesas.

Como dormem as aves marinhas?

As aves marinhas podem descansar em terra e, quando estão em voo, muitas vezes dormem com apenas um dos lados do cérebro, mantendo o outro desperto. Isso permite-lhes permanecer no ar durante semanas ou até meses sem aterrar, o que é essencial para navegar pelos vastos oceanos. A maioria dos animais que dorme com metade do cérebro acordada fá-lo para se manter alerta em relação a predadores.

As aves marinhas são monogâmicas?

A maioria das aves marinhas é socialmente monogâmica, o que significa que forma pares para toda a vida para criar as suas crias. As aves marinhas têm uma vida longa e, muitas vezes, precisam de percorrer grandes distâncias para encontrar alimento. A criação de uma cria exige um grande investimento por parte de ambos os progenitores, tornando essencial ter um parceiro fiável. Isto aumenta a probabilidade de gerar e desenvolver descendência com sucesso. Na maioria das aves marinhas, se a reprodução for bem-sucedida, o casal continuará a reproduzir-se em conjunto até que um dos membros morra ou deixe de regressar à colónia de reprodução.

As aves marinhas atacam?

As aves marinhas podem atacar, normalmente quando estão a nidificar, quando confundem algo com alimento (especialmente as gaivotas) ou, em alguns casos, devido a intoxicação por neurotoxinas, que pode provocar comportamentos erráticos. No entanto, nunca observamos esse tipo de comportamento durante os nossos passeios de barco. De forma geral, as aves marinhas são animais receosos e vulneráveis às ações humanas.

Adorámos o nosso passeio de barco para observação de aves marinhas. Foi a primeira vez que observámos aves em mar aberto e foi uma experiência incrível! Nunca imaginámos ver estas criaturas maravilhosas tão de perto. O grande destaque para nós foi um pequeno papagaio-do-mar e uma dúzia de tordas-mergulheiras. Se é fã de aves, recomendamos sinceramente este passeio.

 

Andrew S
Tripadvisor

Mini Glossário de Termos Específicos

Cleptoparasitismo
Roubo de alimento a outras aves (por exemplo, moleiros).

Necrofagia
Alimentação à base de matéria orgânica morta ou seguindo embarcações.

Mergulhadores em pique
Aves que mergulham a partir do ar para dentro de água para capturar presas.

Pattering
Deslocação à superfície da água com as patas grandes, dando pequenos passos.

Skimming
Voo rente à superfície, tocando na água com o bico.

Dipping
Captura de presas com o bico, tocando apenas ligeiramente na água, como acontece com gaivotas ou andorinhas-do-mar.

Plumagem nupcial
Também conhecida como plumagem reprodutora, refere-se às penas mais vistosas e, muitas vezes, mais coloridas que os machos ou as fêmeas desenvolvem especificamente durante a época de acasalamento para atrair parceiros, em contraste com a plumagem mais discreta do inverno.

AMPs (Áreas Marinhas Protegidas)
Áreas marinhas protegidas, como mares, oceanos e estuários.

Juvenil voador
Ave jovem que está a aprender a voar.


Referências Científicas

Este guia é sustentado por literatura científica, investigação de campo e o know-how da equipa SeaEO. Em baixo, pode explorar as principais fontes utilizadas.

Assírio & Alvim. Guia de aves. Porto: Assírio & Alvim, 2022. 448 p. (Coleção Rosa-dos-Ventos)

Cornell Lab of Ornithology. “Cornell Lab: All About Birds”. Cornell University. Acedido em: 19 de janeiro de 2026

Dias, M. P., Martin, R., Pearmain, E. J., Burfield, I. J., Small, C., Phillips, R. A., Yates, O., Lascelles, B., Borboroglu, P. G., & Croxall, J. P. (2019). Threats to seabirds: A global assessment. Biological Conservation, 237, 525-537pp

Meirinho, A. et al. (2014/2015). Atlas das Aves Marinhas de Portugal. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) . Acedido em: 19 de janeiro de 2026

Mitchell D. & Vulcan A. 2023, Annual Lifecycle of a Seabird – A winter break: life on the open sea (online), BirdLife International. Acedido em: 19 de janeiro de 2026

Oró, D., & Martínez-Abraín, A. (2007). Ecology and Behaviour of Seabirds. Marine Ecology – Volume II (Encyclopedia of Life Support Systems – EOLSS), UNESCO-EOLSS Publishers, Oxford, Reino Unido

Signa, G., Vizzini, S., & Mazzola, A. (2021). Seabird influence on ecological processes in coastal marine ecosystems: An overlooked role? A critical review. Estuarine, Coastal and Shelf Science, 252, 107164