Tubarões em Portugal

Há tubarões em Portugal? Sim. A nossa costa Atlântica – desde o Estuário do Tejo, passando pelo sistema de canhões Lisboa–Setúbal e mais além até aos Açores e à Madeira – alberga mais de 40 espécies. A maioria são animais pelágicos (de oceano aberto), que raramente se aproximam das praias. Os encontros com banhistas são pouco comuns e o risco para quem está a nadar é muito baixo, quando comparado com outros perigos costeiros.

O mais importante é o contexto: quem são estes tubarões, por onde se deslocam, como os ecossistemas saudáveis os atraem e de que forma as medidas atuais de conservação protegem tanto a vida selvagem como as pessoas.

Resposta rápida: Há tubarões em Portugal?

Sem dúvida. Ao largo, é possível encontrar tintureiras (Prionace glauca), tubarões-anequim / mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus), tubarões-martelo-liso (Sphyrna zygaena), peixe-gato de profundidade (Scyliorhinus spp.) e, ocasionalmente, gigantes como o tubarão-frade / tubarão-peregrino (Cetorhinus maximus). As tripulações da SeaEO-Tours já registaram, inclusive, avistamentos à superfície com mar muito calmo ao largo de Lisboa, perto das cabeças dos canhões — momentos emocionantes e raros, que gerimos sempre com respeito.

Ver uma tintureira a deslizar num mar liso e calmo lembra-nos que Lisboa está ao lado de um oceano vivo – vasto, ligado e surpreendentemente gentil.

Sidónio Paes, CEO e biólogo marinho na SeaEO-Tours.

Avistamentos vs. acidentes (últimos anos)

  • Avistamentos: Todos os verões, os media noticiam avistamentos ocasionais de tubarões perto da costa (muitas vezes breves e não ameaçadores), o que pode levar ao içar temporário da bandeira vermelha enquanto os nadadores-salvadores avaliam as condições. Exemplo: em julho de 2025, praias na Foz do Arelho içaram bandeiras vermelhas durante algumas horas após um tubarão ter sido visto perto da rebentação; as autoridades sublinharam que não havia motivo para alarme.
  • Acidentes: O International Shark Attack File (ISAF) confirma que 2024 teve 47 mordidas não provocadas em todo o mundo, o valor mais baixo em cerca de 28 anos, e a quota da Europa é mínima. O ISAF é a referência científica para estes registos. Portugal tem muito poucos casos confirmados ao longo do registo histórico, refletindo o facto de a nossa fauna de tubarões ser, em grande parte, oceânica e cautelosa em relação às pessoas.

Conclusão: em Portugal, os tubarões geralmente não são perigosos para humanos; avistamentos perto da costa não significam ataques, e os protocolos dos nadadores-salvadores são, por prudência, conservadores.

Porque Portugal é “terra de tubarões”: a ligação aos canhões submarinos

Três grandes canhões submarinos — Cascais–Lisboa, Setúbal e Nazaré — recortam a plataforma continental e funcionam como verdadeiras “autoestradas” marinhas, misturando água profunda, rica em nutrientes, com a plataforma produtiva influenciada pelo Estuário do Tejo. Isto aumenta o plâncton e os peixes-forragem, que, por sua vez, atraem predadores de topo, incluindo tubarões e golfinhos, sobretudo ao largo.

Tejo ao Canhão, numa frase: o estuário alimenta a plataforma; os canhões concentram a produtividade; predadores de grande mobilidade percorrem as margens. É uma passadeira natural elegante que começa mesmo ao lado de Lisboa.

Espécies de que é mais provável ouvir falar

Tintureira (Prionace glauca) — O tubarão pelágico que encontramos com mais frequência ao largo. Avaliado globalmente como Quase Ameaçado pela IUCN e fortemente afetado pela captura acessória (bycatch). Curioso, elegante e, geralmente, reservado perto de pessoas.

Tubarão-anequim / mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus) — Um “sprinter” de sangue quente (capaz de manter o corpo mais quente do que a água à sua volta) avaliado globalmente como Em Perigo. No Atlântico Norte, medidas rigorosas da ICCAT e da UE proíbem agora a retenção para ajudar a recuperar o stock (ver Conservação).

Tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena), tubarão-vitela / tope (Galeorhinus galeus), peixe-gato e tubarões-lanterna de profundidade completam a lista, quase sempre longe das praias. ONGs e investigadores locais referem frequentemente 40+ espécies de tubarões em águas portuguesas.

Conservação: o que protege os tubarões em Portugal atualmente

As regras que importam (Atlântico & UE)

Tubarão-anequim / mako-de-barbatana-curta (Atlântico Norte): retenção zero na UE (2025).

O regulamento da UE para as oportunidades de pesca de 2025 proíbe reter, transbordar ou desembarcar tubarão-anequim em qualquer ponto do Atlântico. Na prática: se um mako for capturado, tem de ser libertado – vivo ou morto – para que não entre no comércio.

Plano de recuperação da ICCAT para o mako.

O stock do Atlântico Norte está sob um programa plurianual de recuperação (Rec. 21-09), revisto anualmente. Limita a mortalidade, reforça o reporte e encarrega os cientistas de mapear áreas de maternidade e de parto para orientar eventuais fechos futuros.

Normas de manuseamento e libertação seguros.

As normas mínimas da ICCAT definem como libertar tubarões para maximizar a sobrevivência (cortadores de aparelho, extratores de anzóis, manter o animal na água, evitar o uso de bicheiros). Um guia de boas práticas de 2024 resume evidência de que anzóis circulares e manuseamento cuidadoso reduzem a mortalidade a bordo e melhoram a sobrevivência após a libertação.

Barbatanas naturalmente ligadas na UE.

Desde 2013, a UE exige que os tubarões sejam desembarcados com as barbatanas ligadas ao corpo, proibindo efetivamente o finning (remoção de barbatanas) em frotas e portos europeus – Portugal incluído.

Controlos de comércio CITES.

O mako-de-barbatana-curta e o mako-de-barbatana-longa estão no Anexo II da CITES desde 2019, pelo que o comércio internacional requer licenças baseadas em pareceres de sustentabilidade; isto complementa as regras da ICCAT/UE para as pescas.

Porque estas proteções são necessárias

Muitos tubarões atingem a maturidade tarde, crescem lentamente e têm poucos juvenis – características que fazem com que as populações recuperem devagar após sobrepesca. Por isso, uma gestão robusta é importante mesmo para espécies amplamente distribuídas como a tintureira (Prionace glauca, Quase Ameaçada na Lista Vermelha da IUCN) e especialmente para o tubarão-anequim / mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus, Em Perigo a nível global).

O olhar de Portugal: captura acessória (bycatch), monitorização e ciência

  • A realidade da captura acessória. No Nordeste Atlântico, os tubarões são principalmente capturados de forma incidental em palangres pelágicos dirigidos ao atum e ao espadarte. Dados de observadores e registos de bordo alimentam as avaliações de stock da ICCAT; os relatórios de preparação de dados e avaliação do mako em 2025 sublinham a importância de melhorar as estimativas de rejeições (descartes) e de sobrevivência – essenciais para acompanhar a recuperação.
  • Ciência nas nossas águas. Equipas portuguesas (por exemplo, MARE/Universidade de Lisboa) desenvolvem projetos para mapear elasmobrânquios (tubarões e raias) e reduzir impactos, desde BRUVs (câmaras de vídeo subaquáticas com isco) nas Berlengas até marcação e mapeamento de hotspots ao longo da plataforma e dos canhões. Estes estudos ajudam a identificar onde espécies sensíveis se sobrepõem ao esforço de pesca, para que os gestores possam atuar.

Turismo ético e códigos de conduta locais

Código de mergulho com tubarões nos Açores. Os Açores têm um código regional de conduta para mergulhos com tubarões pelágicos (por exemplo, no Banco Condor), priorizando a segurança dos mergulhadores e o bem-estar animal (limites de tamanho de grupo, regras sobre provisioning / alimentação artificial, comportamento na água). Operadores responsáveis fazem briefing aos clientes, evitam perseguir os animais e terminam o mergulho se os tubarões mostrarem sinais de stress.

Porque ajuda. O turismo de natureza bem gerido pode valorizar tubarões vivos, transferindo valor de usos extrativos para a observação e reforçando o apoio público à conservação (ver também o guia de boas práticas da WWF para turismo com tubarões e raias).

O que os leitores podem fazer (prático e com base científica)

  • Escolher operadores que sigam boas práticas de libertação e de interação.
  • Apoiar a recolha de dados — Fotografias de cidadãos (com data/posição) de tubarões invulgares — por exemplo, tubarões-frade na primavera — podem ser partilhadas com grupos de investigação portugueses para documentar pulsos sazonais ao longo do eixo de canhões Lisboa–Setúbal–Nazaré.
  • Apoiar regras baseadas na ciência — Medidas como a retenção zero do tubarão anequim e a política de barbatanas ligadas são passos essenciais para populações mais saudáveis no Atlântico.

Dicas de segurança para nadadores e surfistas

  1. Bandeiras na praia: Em Portugal, os nadadores-salvadores usam bandeiras de cor; vermelha = proibido nadar, amarela = cautela, verde = condições favoráveis. Algumas praias podem usar bandeira roxa para indicar vida marinha potencialmente perigosa (por exemplo, medusas ou, raramente, tubarões). Siga sempre as indicações dos nadadores-salvadores e a sinalização no local.
  2. Se houver um avistamento: saia da água com calma, evite descartes de pesca perto de banhistas e deixe que os profissionais avaliem. Encerramentos temporários são preventivos, não um sinal de perigo aumentado.

Bellow, the scientific illustrator João Tiago Tavares, from Gobius created these biological illustrations for the initiative to promote the importance and beauty of Sharks in Portugal called #WeLikeSharks coordinated by APECE in 2013. Proof is that these amazing illustrations represent the biggest pelagic Sharks occuring in Portugal or spotted in portuguese waters including Madeira and Azores Arquipelagos. In total, there are more than 40 shark species swimming by, and none or very few dangerous shark-attacks. The objective was to dismistify the terror generated during decades of these lovely and pre-historical marine creatures.

Sharks-of-Portugal-SeaEO-Tours
Some of the Sharks in Portugal or species spotted in Atlantic Portugueses waters – @JTT

Sharks in Portugal and elsewhere are facing enormous threats, mainly due to overfishing, as they are essential to balance the ecosystems (Queiroz et al., 2015 and Queiroz et al., 2019), with detailed explaintions on a extensive scientific research on “Global spatial risk assessment of sharks under the footprint of fisheries”.

Furtunately, it is common on a Dolphin Watching odyssey to encounter Blue-sharks at the surface, specially when the wind is very smooth. In 2020, we spotted more than 5 blue-sharks swimming at the surface, while a colleague spotted a 3m hammer-head shark close to the Lisbon Canyon as shown above. In these boat tours, the chances are low, however with rising water temperatures during summer they occur more frequentely.

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