O Estuário do Tejo é a maior zona húmida de Portugal e uma das mais importantes da Europa. Todos os invernos, dezenas de milhares de aves aquáticas encontram ali abrigo. O estuário também serve de viveiro para peixes e crustáceos e recebe visitas frequentes de golfinhos selvagens. Por isso, é considerado um verdadeiro indicador da saúde do rio Tejo e da costa de Lisboa.
Muitas das pessoas que atravessam a Ponte 25 de Abril ou passeiam à beira-rio em Belém não imaginam o que existe um pouco mais acima, além da cidade, a montante. O Tejo transforma-se numa grande bacia de lama, sal e água salobra, formando um dos ecossistemas mais produtivos da Europa. O Estuário do Tejo começa praticamente ao lado de Lisboa e sua importância para a biodiversidade vai muito além das fronteiras de Portugal.
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Um dos maiores estuários da Europa, à porta de Lisboa
O sistema estuarino do Tejo ocupa cerca de 34.000 hectares, o que faz dele o maior estuário da Europa Ocidental. Dentro do estuário, a Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET) protege cerca de 14.500 hectares de águas estuarinas, lodaçais, sapais, salinas, mouchões e lezírias agrícolas, distribuídos pelos concelhos de Alcochete, Benavente e Vila Franca de Xira. É uma paisagem que se modifica com a maré: a cada seis horas, milhares de hectares de lama ficam expostos ou submersos, e é exatamente essa alternância que sustenta grande parte da vida que ali encontramos.
Onde o rio doce encontra o Atlântico salgado
Um estuário é o lugar onde a água doce do rio se encontra com a água salgada do mar. Essa mistura cria condições especiais: a água fica cheia de nutrientes trazidos pelo rio, e as marés espalham esses nutrientes por toda a área. Isso faz com que o estuário tenha uma produtividade biológica muito alta, capaz de sustentar grandes populações de vermes marinhos, moluscos e crustáceos, em quantidades bem maiores do que no mar aberto. Essa riqueza alimentar atrai peixes, aves e mamíferos marinhos.
Uma zona húmida com estatuto internacional
A importância do Estuário do Tejo vai além da opinião de quem observa a paisagem. Ela está garantida por lei desde 1976, quando foi criada a Reserva Natural do Estuário do Tejo pelo Decreto-Lei n.º 565/76. Em 1980, o estuário entrou para a lista de Zonas Húmidas de Importância Internacional da Convenção de Ramsar, com o número de referência 211 (Ramsar Sites Information Service, s.d.). Em 1994, foi também classificado como Zona de Proteção Especial para Aves Selvagens, segundo a Diretiva Aves da União Europeia, e faz parte da Rede Natura 2000 como Sítio de Importância Comunitária. Poucos lugares tão próximos de uma capital europeia têm tantas formas de proteção.

As aves que atravessam continentes para aqui pousar
As aves aquáticas são o principal motivo do reconhecimento internacional do Estuário do Tejo. De acordo com o ICNF, o estuário recebe cerca de 100.000 aves invernantes todos os anos, e esse número pode passar de 140.000 durante as migrações. No total, são registradas cerca de 194 espécies de aves, entre residentes, invernantes e migratórias, além de 35 espécies de mamíferos, 9 de répteis e 11 de anfíbios na área terrestre ao redor (ICNF, s.d.).
A rota migratória do Atlântico Este
Muitas destas aves não nascem nem vivem em Portugal. Fazem parte de populações que se reproduzem no norte da Europa e na Sibéria e, todos os anos, viajam milhares de quilómetros até África, seguindo o chamado corredor do Atlântico Este. Ao longo desta rota, precisam de locais onde possam parar, alimentar-se e recuperar energia antes de continuar a viagem. O Estuário do Tejo é um desses pontos de paragem essenciais entre os dois continentes.
Espécies que fazem do Tejo casa, refúgio ou paragem
As aves usam o estuário de maneiras diferentes. Algumas, como o alfaiate (Recurvirostra avosetta), símbolo da RNET, passam o inverno ali em números que podem chegar a 75% de toda a população invernante da espécie na Europa (ICNF, s.d.). Outras, como a garça-vermelha e o pernilongo, nidificam nas salinas e nos sapais. Existem também espécies que só estão de passagem, descansando alguns dias antes de seguir viagem. Flamingos, colhereiros, águias-pesqueiras e milheirangos fazem parte desse ecossistema, cada um com seu próprio calendário, ligado às marés, às estações e às distâncias que ainda vão percorrer.
Um berçário debaixo de água
Apesar de ser famoso pelas aves, o estuário também tem um papel fundamental como viveiro para a vida marinha. Debaixo d’água, o Tejo serve de local de desova e crescimento para jovens de espécies importantes, como o linguado e o robalo. Segundo estudos da Associação Natureza Portugal (WWF), o estuário também exporta alimento para a costa, liberando zooplâncton que alimenta outros peixes perto de Lisboa. Em 2009, foi confirmada a existência de pradarias marinhas no estuário, um habitat muito valioso por proteger espécies vulneráveis e ajudar a capturar carbono de forma eficiente (ANP/WWF, 2022).
Os sapais como fábrica de vida
Ao longo das margens, o sapal desenvolve-se sob a influência direta da maré. É uma zona de elevadíssima produtividade em poliquetas, moluscos e crustáceos e funciona, na prática, como uma maternidade para várias espécies de peixe. Além disso, os sapais desempenham um papel discreto, mas fundamental na regulação ambiental: contribuem para o sequestro de dióxido de carbono e para a estabilização de metais pesados presentes na água, prestando um serviço que beneficia todo o sistema estuarino, muito para além das espécies que ali vivem diretamente.

O regresso dos golfinhos: um sinal sobre a saúde do estuário
Ao contrário do estuário do Sado, que tem uma população fixa de golfinhos-roazes, o Tejo não tem golfinhos residentes. Mesmo assim, desde o final do século XX, e especialmente nos últimos anos, os avistamentos de golfinhos no rio voltaram a ser frequentes. As espécies mais observadas são o golfinho-comum e o golfinho-roaz, com registos ocasionais de botos.
Porque os golfinhos são espécies sentinela?
Os golfinhos são predadores no topo da cadeia alimentar. Isso quer dizer que precisam de uma cadeia alimentar completa e saudável para se manterem naquela zona: peixes em quantidade suficiente, água com qualidade adequada e níveis de perturbação humana toleráveis. Quando um golfinho entra no estuário para se alimentar, está, sem o saber, a confirmar que essas condições existem naquele momento. Por isso, cientistas e organizações de conservação consideram os golfinhos espécies sentinela: a sua presença ou ausência funciona como um termómetro da saúde ambiental do sistema.
O que o Observatório Golfinhos no Tejo tem vindo a descobrir?
Desde 2022, o projeto Observatório Golfinhos no Tejo, uma parceria entre a Administração do Porto de Lisboa, a Associação Natureza Portugal/WWF e o MARE-ISPA, monitoriza a presença de cetáceos no baixo estuário a partir da Torre VTS, em Algés. Nos primeiros meses de trabalho, os investigadores registaram avistamentos em mais de um terço das horas de observação, sobretudo de golfinhos-comuns. O objetivo do projeto vai além de contar animais: procura perceber que zonas do estuário utilizam, se regressam os mesmos indivíduos, e, sobretudo, o que a sua presença revela sobre décadas de esforço de despoluição do rio, incluindo o tratamento de águas residuais e a redução de indústrias poluentes.
Este trabalho científico é também um lembrete de que a biodiversidade do Tejo não é um dado adquirido: continua sujeita a pressões humanas e a sua recuperação depende de vigilância contínua.

Como a SeaEO-Tours vive esta biodiversidade todos os dias?
Na SeaEO-Tours, saímos todos os dias sem saber ao certo o que vamos encontrar no estuário e na costa de Lisboa. Essa imprevisibilidade é, na verdade, o que torna cada saída única. A bordo, biólogos marinhos e ornitólogos ajudam a interpretar o que se vê: o comportamento de um grupo de golfinhos, o voo sincronizado de um bando de limícolas, a diferença entre uma ave residente e uma visitante de passagem.
Partilhamos ainda dados de avistamento com projetos de investigação, entre os quais o Observatório de Golfinhos do Tejo, contribuindo com informação recolhida durante os nossos passeios para o conhecimento científico deste ecossistema.
O que pode esperar a bordo
Um passeio pelo Estuário do Tejo é, acima de tudo, um exercício de atenção.
Nos passeios de observação de aves no Estuário do Tejo, seguimos o ritmo da maré para procurar limícolas, garças e, dependendo da época, flamingos e águias-pesqueiras, sempre guiados por um biólogo ou ornitólogo a bordo.
Já no passeio de observação de golfinhos em Lisboa, navegamos entre o rio e o Atlântico, onde há possibilidade de encontrar golfinhos-comuns ou golfinhos-roazes, sempre garantindo o respeito pelas distâncias de segurança e o código de conduta para observação de cetáceos.